Centrais de energia solar e uma sonda para Marte. A China está a conquistar o espaço?

Pequim quer explorar energia solar no espaço num futuro próximo. Os planos criam tanto entusiasmo, pelo potencial combate às alterações climáticas, como riscos pelo uso tático ou militar daquela tecnologia.

© Reuters/Regis Duvignau

A China afirma estar a trabalhar no desenvolvimento de uma central solar elétrica que um dia pode obter e trazer para a Terra energia suficiente para o consumo de uma cidade inteira. Se o projeto for bem-sucedido, representará um enorme salto na atual dependência energética dos combustíveis fósseis que tem contribuído para um aumento exponencial das alterações climáticas, bem como uma fortíssima alternativa às atuais energias renováveis, explica a CNN.

Pequim comprometeu-se a investir 367 mil milhões de dólares em energia renovável – solar, eólica, hidráulica e nuclear – até 2020.

A empresa estatal chinesa responsável pela ciência aerospacial e tecnologia planeia lançar, até 2021, pequenos satélites solares capazes de explorar energia no espaço, de acordo com um recente relatório publicado no jornal oficial daquele país Science and Technology Daily, na tradução inglesa. A partir daí, deve começar a testar tecnologia capaz de enviar energia para a Terra através de lasers. Para tal será construída uma estação de receção em Xian, a nordeste da cidade chinesa de Chongqing. A mesma empresa espera estar a operar uma estação espacial de energia solar comercialmente viável em 2050.

A energia solar obtida poderia depois ser enviada para a terra por micro-ondas ou lasers. Todavia, Pang Zhihao, investigador da Academia Chinesa de Tecnologia Espacial, alerta para a necessidade de analisar os potenciais riscos que este processo coloca a humanos, animais e plantas.

Instrumento militar letal?

Além disso, e embora seja altamente aliciante do ponto de vista do combate às alterações climáticas, muitos alertam para o perigo de a China poder usar os lasers produzidos numa central solar elétrica como um instrumento militar letal. Peter Schubert, diretor do Centro Richard G. Lugar para as Energias Renováveis na Universidade de Indiana – Purdue Indianapolis alerta para os potenciais perigos lembrando que “um laser pode incendiar uma cidade em minutos ou horas”. Além disso, um daqueles satélites na órbita geoestacionária teria visão sobre cerca de um terço da superfície da terra, o que representa uma enorme vantagem tática para a China e um enorme risco para os restantes países.

Foi em 1970 que a China pôs em órbita o seu primeiro satélite, bastante depois dos Estados Unidos ou da então União Soviética. Contudo, esse atraso tem sido largamente recuperado dos últimos anos. Ainda em janeiro, a China se tornou no primeiro país a aterrar uma sonda no lado mais afastado da Lua, conhecido como o seu lado “oculto”.

O presidente Xi Jinping tem, aliás, investido milhares de milhões na corrida ao espaço. A partir de amanhã, Xi apresentar-se-á perante o Parlamento, que começa a sua sessão anual, num momento em que a China enfrenta uma desaceleração da economia e uma guerra comercial com os Estados Unidos.

Uma das metas atuais da China no que diz respeito ao desenvolvimento da sua presença espacial é enviar, até 2020, uma sonda para Marte.

De acordo com a organização americana United States National Space Society a energia solar espacial é potencialmente a maior fonte de energia disponível, que poderia dar resposta a todas as necessidades de todas as pessoas no nosso planeta. Também Schubert corrobora esta visão, descrevendo-a como “a mais importante tecnologia para a humanidade”. Chamando a atenção para o facto de a colaboração entre os Estados Unidos e a China nesta matéria seria “o melhor caminho para o sucesso”, Schubert lembra contudo que a legislação vigente impede a NASA de colaborar com a China em tecnologia aeroespacial.

A tecnologia de exploração de energia solar no espaço existe desde a década de 1960, recorda. Apesar disso, ainda há muitos entraves, nomeadamente a nível de custos. Em causa está, por exemplo, a necessidade de encontrar uma forma não demasiado cara de transportar a central solar elétrica para o espaço. Uma das soluções em cima da mesa é a impressão em 3D.

De acordo com a United States National Space Society os custos que envolvem a tecnologia necessária para a concretização da produção de energia solar no espaço são mais pequenos do que aqueles que tem e terá o aquecimento global.

A produção de energia solar no espaço seria, além disso, muito mais eficiente. De acordo com a publicação chinesa Science and Technology Daily, já citada, a produção de energia solar seria seis vezes mais eficiente. Afinal, uma central elétrica solar a flutuar 36 mil quilómetros acima da nossa cabeça não estaria tão dependente das contingências como aquela que é produzida na Terra. A energia solar poderia gerar eletricidade durante 99% do tempo de utilização daquela tecnologia, tendo como exceção apenas os momentos em que a Terra eclipsa o sol. Além disso, os raios solares não seriam enfraquecidos pela viagem que fazem até à atmosfera terrestre.

Fonte: Diário de Notícias