Chernobyl tornou-se uma insólita experiência de energia limpa

A uns 90 metros das ruínas do lugar onde aconteceu o pior desastre nuclear do mundo, uma teia de quase 4.000 painéis fotovoltaicos está instalada em cima de uma placa grossa de betão que fica sobre um túmulo de resíduos radioativos.

Quando se pensa em energia não poluente, é difícil imaginar um lugar menos provável do que a infame central nuclear de Chernobyl, na Ucrânia. Mas estão a ser realizados os últimos preparativos para voltar a gerar eletricidade, desta vez com a energia do sol, mais segura.

É parte do plano do país para se tornar menos dependente das exportações de gás russo, cada vez menos fiáveis, e da oferta irregular de carvão. Dominada pela estrutura cinza de 91 metros de altura que sepulta o reator destruído, a zona de exclusão de Chernobyl é quase do tamanho de Luxemburgo, e as autoridades afirmam que é vital na tentativa da Ucrânia de duplicar a sua produção de energia solar.

A Solar Chernobyl está na vanguarda da mais nova experiência para dar uma nova vida a um local que é sinônimo de catástrofe, depois de tentativas anteriores terem fracassado. A empresa é uma parceria entre a Rodina Energy, do empreendedor ucraniano Yevgen Variagin, e a Enerparc, com sede em Hamburgo.

“A nossa ideia foi utilizar o terreno dos resíduos, que é inadequado para qualquer outra coisa, e desenvolver o projeto de investimento para fazer negócios em Chernobyl”, disse Variagin, que era um estudante de 10 anos em Kiev quando o desastre aconteceu, em Abril de 1986, enquanto mostrava os painéis solares instalados nos últimos 30 dias.

Desastre

A central de Chernobyl era a base da estratégia nuclear da União Soviética na Ucrânia.

Até que o quarto reator explodiu, cobrindo a área com uma radiação que matou 49 pessoas imediatamente e deixou milhares de outras com problemas de saúde permanentes e, em muitos casos, fatais. A região está repleta de vilas abandonadas e antigas quintas que estão a ser lentamente engolidas pela densa floresta.

“A realidade é que parte da terra ficará abandonada durante gerações, até mesmo por um milhão de anos”, disse Yevgen Gucharenko, funcionário de uma agência que acompanha grupos de turistas. Gucharenko tinha 13 anos quando o reator explodiu. “Mas existem algumas áreas limpas, onde é suficientemente seguro fazer breves visitas.”

Metas

É aí que o local encaixa no grande plano de energia renovável. A Ucrânia quer aumentar produção de energia solar, hidrelétrica, eólica, de biomassa e biogás para 11% da geração de eletricidade até 2020, afirmou Yulia Kovaliv, diretora do Conselho Nacional de Investimentos da Ucrânia.

Com uma capacidade acumulada de cerca de 1,2 gigawatt de energia solar até o fim de 2017, a Ucrânia já é um “nome de peso”, a par de países europeus como a Áustria, segundo James Evans, analista da Bloomberg Intelligence.

“Qual o sentido de transformar campos agrícolas em parques solares se há tantos territórios afetados pela atividade humana que estão danificados e não servem para nenhuma outra coisa”, questionou Variagin, que foi evacuado no carro do avô para uma zona rural após o desastre. “Para nós, este projeto tem a ver com responsabilidade social. É a coisa certa a fazer.”

(Texto original: Radiation Is Put to Good Use for Once in Chernobyl)

Fonte: Jornal de Negócios