“Devíamos colocar uma placa solar sobre cada telhado”

Carlos Silva, professor e bibliotecário, defende mais educação e melhor aproveitamento das energias renováveis.

Henriques da cunha / Global imagens

Se Portugal quiser sobreviver, a longo prazo, como nação e como povo, tem de assumir não um, mas vários desígnios fundamentais.” Carlos Alberto Silva poderia apontar vários, mas há pelo menos três que lhe prendem a preocupação: “A educação, primeiro. Quando se comparam os resultados educativos do nosso país com os de outros, nomeadamente os do Norte da Europa, esquece-se com frequência um dado importante: eles levam mais de cem anos de avanço. Em meados do século XX, Portugal encontrava-se numa situação pior, em termos de analfabetismo, do que os países da Europa do Norte em meados do século XIX. Nos anos 70 do século passado, os índices de analfabetismo em Portugal eram ainda escandalosamente altos (25%). O caminho que se fez, sobretudo desde essa altura, é notável. Muitos rapazes e raparigas da minha geração tiveram uma oportunidade que os pais, operários e camponeses, não tinham tido. Puderam aceder a uma escolaridade de nível secundário e muitos deles formaram-se como engenheiros, advogados, economistas, médicos ou professores. Isso permitiu uma grande mobilidade social. Foi um dos grandes feitos da Revolução dos Cravos.” Mas isso não bastou.

Se hoje o analfabetismo absoluto é quase residual, sobra no entanto o analfabetismo funcional. O professor bibliotecário (diplomado em Educação de Infância e licenciado em Comunicação Educacional e Gestão da Informação) acredita que há só uma maneira de dar a volta a dar a isso: “Com uma rede de leitura pública consistente (que já existe) e com medidas de promoção e valorização da leitura, que precisam de ser ainda mais amplas e efetivas. Infelizmente, os nossos autarcas são capazes de queimar mais facilmente uns milhares de euros nas vedetas do cançonetismo nacional e internacional do que em outras medidas culturais estruturantes.”

Depois é preciso capacitar os estudantes para as novas tecnologias, “sobretudo no âmbito da programação e da robótica”, tendo em conta que os equipamentos das escolas estão, no geral, em fim de vida. “Há muitos indícios de que os portugueses são bons nesse domínio e isso representaria um dos saltos qualitativos de que o país precisa.” Mas de todas as ideias que tem para o país há uma que aponta seriamente: o aproveitamento da energia solar. “Portugal não tem grandes recursos no seu subsolo. Não tem diamantes nem metais preciosos. Nem petróleo. Mas tem sol durante mais de 300 dias por ano. E isso pode servir não apenas para atrair turistas, mas para garantir a satisfação das necessidades energéticas do país. O sol pode ser o nosso petróleo limpo. E não seria preciso criar grandes centrais solares. Bastaria colocar uma placa solar sobre cada telhado português, o que tornaria as famílias consumidoras em produtoras.” Carlos Silva já foi ator, cenógrafo, animador cultural, jornalista e autarca, entre outras atividades. É formador de professores nas áreas da leitura e das expressões artísticas. Gosta do que faz. Acredita que o povo português é algo “bipolar. É capaz do melhor e do pior. E passa de um extremo ao outro enquanto o diabo esfrega um olho: da inveja mais mesquinha à mais tocante solidariedade; da má língua mais rasteira à mais lírica poesia; do maior desalento ao maior voluntarismo; da tristeza mais deprimente à mais louca euforia. E vice-versa. Essa característica é, ao mesmo tempo, a sua força e a sua fraqueza”.

De resto, quando olha para o posicionamento de Portugal na EU, parece-lhe que muitas vezes apenas partilha as mesmas raízes civilizacionais e culturais, o mesmo espaço geográfico. “A sua participação na União é incontornável. No entanto, isso só faz sentido em igualdade de circunstâncias com os restantes Estados. Não compreendo como o nosso país pode ser penalizado pelo mais pequeno desvio às regras comunitárias, enquanto outros, com os mesmos problemas ou piores mas com mais influência na mesa das negociações, passam entre os pingos da chuva. É imoral e inaceitável. O euro foi criado à imagem e semelhança do marco alemão e a Alemanha tem feito uma espécie de bullying sobre os países pequenos.”

Defende que o projeto europeu deve ser mais social e menos económico, “ou corre o risco de implodir, a médio prazo”. E isso nada tem a ver com a natureza de receber ou não refugiados por cá, pois encara essa como “uma questão de humanidade, indiscutível. Para mim, não há diferença entre homens e mulheres, brancos, pretos ou amarelos, homossexuais e heterossexuais, crentes e ateus, cristãos, muçulmanos ou animistas. Somos todos seres humanos”. Agora que o tempo da troika já lá vai, olha para ele como “o período mais negro da nossa história recente. Estivemos literalmente sob ataque dos especuladores financeiros, com a conivência do governo de então. Aproveitou-se essa investida para espoliar direitos laborais e sociais e desbaratar empresas públicas. O desemprego aumentou como nunca, a emigração tornou-se a única alternativa para muitos e os jovens ficaram com uma perspetiva de vida ainda mais incerta e precária. Em resumo, os pobres ficaram mais pobres, a classe média foi literalmente depenada e os ricos, claro, ficaram ainda mais ricos”. E agora olha para o futuro através de uma janela de esperança.

Fonte: Diário de Notícias