Energia limpa ganha espaço sem comprometer o futuro do planeta

O Brasil tem uma localização geográfica privilegiada e poderia mitigar de forma quase completa as emissões causadas pelo uso e geração de energia.

Central Fotovoltaica Assu V, com capacidade instalada de 30 MWp, no Rio Grande do Norte
(foto: Acervo ENGIE )

Como não é matéria, o fogo não tem um estado físico, mas mistura calor e luz, duas fontes de energia. No Brasil, a produção e o consumo de energia representam 19% do total de mais de 2,2 bilhões de toneladas de carbono equivalente (CO2e) emitidos pelo Brasil por ano na atmosfera. O país é o 13° no ranking global de emissão, com 1,4% do total. O uso de combustíveis fósseis nos transportes e na indústria e a geração de eletricidade são as atividades que mais lançam gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global. Na última reportagem da série sobre sustentabilidade, o Correio aborda os desafios e as iniciativas para gerar e usar energia sem comprometer o futuro do planeta.

Apesar dos dados serem preocupantes, o Brasil tem uma localização geográfica privilegiada e poderia mitigar de forma quase completa as emissões causadas pelo uso e geração de energia. Além de ter umas das matrizes energéticas mais limpas, com alto aproveitamento hidrelétrico, o país tem vento e insolação suficientes para aproveitar essas fontes renováveis e se livrar de vez dos combustíveis fósseis. Pioneiro na produção de etanol de cana-de-açúcar, o país também está prestes a dar o devido valor ao biocombustível.

Potencial

O presidente da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica, Rodrigo Sauaia, explica que a matriz energética brasileira é variada, mas o maior potencial é da energia solar, que poderia atingir 28 mil gigawatts (GW), se todas as melhores áreas do país fossem aproveitadas. “Isso representa 178 vezes a matriz elétrica brasileira, de 160 GW. Se for usada só a área construída, ou seja, os telhados de residências, a energia solar produziria 164 GW”, contabiliza.

O avanço da tecnologia, no entanto, depende da redução dos custos dos equipamentos, o que vem ocorrendo gradativamente — hoje, o valor é 17% do que era em 2010. “A energia solar fotovoltaica é a segunda mais barata do Brasil”, destaca Sauaia.

Infelizmente, segundo o dirigente, o Brasil está 15 anos atrasado. “O Proinfa, programa de incentivo a fontes alternativas, deixou de fora a energia solar, incluindo apenas eólica, pequenas centrais hidrelétricas e biomassa. Isso atrasou o desenvolvimento dessa fonte”, lamenta. Por outro lado, o consumidor não paga um centavo de incentivo para a energia solar, que tem outro tipo de estímulo: desconto no uso da linha de transmissão. “Mas é a que menos usa os linhões, porque, em geral, a produção fica próxima do consumo”, sustenta.

Sauaia assinala que,  se a mesma área de Itaipu fosse usada com placas fotovoltaicas, a usina produziria duas vezes mais. “A tecnologia não emite gases poluentes. Não usa água para produzir, o que alivia os reservatórios e evita o impacto ambiental de alagamento causado pelas hidrelétricas. Não competimos com o uso múltiplo da água. Bastaria uma área do tamanho do município de Salvador para abastecer todo o país”, observa.

A mudança começou nas grandes empresas. Maior geradora privada de energia do Brasil, com capacidade instalada de 10 mil megawatts (MW), a Engie se antecipou à transição energética e está investindo em fontes renováveis. No segmento eólico, são 539 MW de capacidade instalada.

Outra aposta da empresa é na energia solar. A Engie tem duas usinas: a Solar Cidade Azul, em Tubarão (SC), com 3 MWp (megawatts pico), e a Central Fotovoltaica Assu V, no Rio Grande do Norte, com capacidade instalada de 30 MWp. “Com essa usina ampliamos nossa experiência no setor fotovoltaico e consolidamos nossa entrada definitiva na geração solar centralizada”, diz o presidente da Engie Brasil Energia, Eduardo Sattamini.

Biocombustíveis

Um dos grandes desafios para o cumprimento dos compromissos internacionais que o país assumiu, segundo Marcelo Augusto Boechat Morandi, chefe-geral da Embrapa Meio Ambiente, é reduzir as emissões do setor energético. “O petróleo é a principal fonte primária da matriz energética brasileira, representando 39% de toda a energia ofertada e 71% das emissões de GEE do setor (em 2014)”, diz. Outras importantes fontes de energia de origem fóssil são o gás natural e o carvão mineral, que respondem por 17% e 6% do total de emissões de GEE, respectivamente.

A mudança das fontes de energia tem sido um desafio para pesquisadores e para a ciência, diz João Ricardo Almeida, chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Agroenergia. “A sociedade é baseada no fóssil, responsável pela poluição do ar e emissões, mas há muitas alternativas”, afirma. A biomassa é uma delas, apesar de provocar queima para gerar energia, utilizando bagaço de cana. “Quando o vegetal está crescendo absorve o CO2. Isso não acontece com combustíveis fósseis”, explica.

Como a queima é o processo mais simples, é difícil provocar a mudança de paradigma, sobretudo, na indústria, detalha o especialista. “Porém, além da troca de fonte ser viável, já é possível fazer uma desconstrução dos resíduos de biomassa para a fabricação de outros produtos, como plástico, evitando o uso de derivados de petróleo. Dá para usar todo o componente da biomassa e gerar a menor quantidade de resíduos”, afirma Almeida.

Em países da Europa, a produção de energia atingiu níveis de excelência, com o uso de biogás de lixo, diminuindo os resíduos e o impacto ambiental. O que sobra é usado como fertilizante. No Brasil, no entanto, foi desenvolvida uma tecnologia entre as melhores do mundo, mas é pouco usada, diz Almeida. “O etanol de cana, sob o ponto de vista energético, está entre os melhores biocombustíveis do mundo, porque a matéria-prima de baixo custo, com alta eficiência.

Carbono

Com a aprovação do RenovaBio, os biocombustíveis passarão a ter o tratamento que merecem no Brasil. Miguel Novato, diretor de Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia (MME), assinala que o programa é a “primeira máquina nacional do mundo em captura de carbono”. A lei foi aprovada em 2017 e começa a funcionar em 2020. “Estamos certificando as usinas de biocombustíveis, seja quais forem — biogás, biodiesel, etanol, biogás de lixo, etanol de milho — para construir uma estrutura financeira e pagar pelo carbono retido”, explica.

Na prática, funciona assim: quanto menos a cadeia usar combustíveis fósseis e quanto mais capturar carbono no processo, mais créditos ganha. Quem produz e comercializa combustíveis fósseis, ao contrário, precisa comprar esses créditos, que serão negociados em bolsa.

“Diferentemente de energia solar ou eólica, no ciclo de vida, as plantas conseguem transformar o carbono em oxigênio por meio da fotossíntese. Então, um carro a etanol é mais ecológico do que o elétrico, a depender de como foi gerada a energia que abastece o elétrico”, compara Novato. A partir do RenovaBio, a estimativa do especialista é tirar 600 milhões de toneladas de CO2 da atmosfera até 2029. “Vamos criar um mercado no qual quem emitir CO2 precisará compensar e transferir essa compensação para as empresas que trabalham na retenção do gás”, afirma.

Qualidade do ar depende de menos emissões

Por receber um bombardeio de emissões de gases de efeito estufa (GEE), o ar perde qualidade dia após dia. Além da queima de combustíveis fósseis, a destruição de florestas deixa a humanidade em situação vulnerável diante das mudanças climáticas. Isso porque as árvores garantem a absorção de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, um dos responsáveis pelo aquecimento global.

A poluição do ar é uma realidade urbana, explica Rachel Biderman, diretora executiva do WRI Brasil. “O país já esteve avançado nesta área. Hoje, a legislação de qualidade do ar é de 1980 e precisa ser resgatada. Além disso, há uma deficiência grande no monitoramento. Mesmo que tenha lei, não tem fiscalização”, alerta.

São Paulo, com o ar mais comprometido do país, tem o melhor modelo de monitoramento e, mesmo assim, não mede todos os poluentes. “Temos políticas de controle da poluição veicular, industrial e existem normas do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente)”, diz Rachel. Em São Paulo, por conta da poluição do ar, as pessoas têm expectativa de vida de três a quatro anos menos do que no resto do país, revela.

Para Guarany Osório, coordenador do programa de Política e Economia Ambiental do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces), o maior problema está no desmatamento, que elimina a captura do dióxido de carbono pelas plantas, mas setores como a indústria, a produção de energia e a agropecuária são relevantes emissores de GEE. “O Brasil tem compromissos internacionais de redução de emissão para depois de 2020; essa agenda terá de ser discutida agora”, diz.

O especialista explica que o mundo está cobrando eficiência ambiental. A demanda é maior por produtos de baixa emissão de carbono. “Para quem exporta, é importante olhar para sua cadeia, ver quanto está emitindo GEE. A regulação tem que entrar para fazer o comércio de carbono acontecer”, defende.

Fabiana Alves, da campanha de Clima e Energia do Greenpeace Brasil, lembra que, no Acordo de Paris, o Brasil se comprometeu a acabar com o desmatamento ilegal e a reduzir as emissões. “Infelizmente, em 2018, houve um aumento recorde do desmatamento, de 13,7%, em relação ao ano anterior. Isso significa que pouco tem sido feito”, destaca.

Quanto a outros setores, Fabiana afirma que as emissões totais do país aumentaram 32% de 1990 a 2016. “De acordo com o IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) da ONU, para que não haja um colapso global, devemos manter o aquecimento da temperatura global abaixo de 2 graus celsius. Isso significa que os países devem parar de emitir GEE e, além disso, devem sequestrar carbono.

Fonte: Correio Braziliense