Livro defende inovação para ampliar o uso de fonte solar

Limitações tecnológicas podem levar a beco sem saída, escreve autor.

Conjunto de painéis solares em deserto na Califórnia (EUA); autor defende mais verba governamental para pesquisa – Lucy Nicholson

Há algo de ligeiramente mágico na energia solar. A maioria dos métodos de geração de eletricidade recorre a equipamento rotativo, imãs e bobinas para induzir uma corrente. Os painéis solares geram eletricidade sem precisar de partes móveis.

Por décadas, parecia que a esotérica ciência do efeito fotovoltaico teria aplicação limitada para usos especializados, como acontece nos satélites. Mas os painéis solares atuais são um produto para o mercado de massa e estão se espalhando pelos telhados de lojas e casas e florescendo em grandes centrais de geração de energia.

Varun Sivaram, que pesquisa sobre ciência e tecnologia no Conselho de Relações Exteriores, em Nova York, estudou a revolução solar e o que viu tanto o entusiasmou quanto o preocupou.

Ele escreve que a energia solar pode ter um futuro brilhante, e que talvez atenda à maior parte da demanda mundial por eletricida- de, antes do fim do século. Mas também alerta para o fato de que seu desenvolvimento pode chegar a um beco sem saída, por causa de tecnologias falhas que limitarão seu crescimento.

Seu livro “Taming the Sun” (Domando o sol) é tanto o melhor panorama disponível quanto à situação atual do setor quanto um plano de rota sobre como ele pode buscar um futuro mais brilhante.

Os escritores que tratam da energia renovável tendem a recair em duas categorias: os interessados em desmascarar um setor que veem como grande trapaça e os visionários que descrevem um futuro deslumbrante, mas são vagos quanto aos detalhes de como chegar lá.

Sivaram diz que desejava oferecer uma visão “equilibrada”, e foi o que ele fez em seu estudo detalhado sobre as promessas e os percalços da energia solar.

É difícil resistir ao seu argumento de que apenas a inovação permitirá realizar todo o potencial dela.

O setor floresceu nos últimos dez anos como resultado de apoio governamental e de uma queda de custos que o tornou competitivo contra os combustíveis fósseis.

O que tornou possível esse progresso não foi uma ruptura tecnológica –células de silício estão em uso desde a década de 1950–, mas sim a fabricação em alto volume, especialmente na China, que fez o setor se beneficiar de economia de escala.

Sivaram teme que, na década de 2030, os painéis solares em sua configuração atual atinjam limites econômicos e técnicos.

INOVAÇÃO

A solução que ele defende é a inovação, nas redes de eletricidade, nas estruturas financeiras e na tecnologia solar.

Os verdadeiros heróis do livro emergem apenas na metade do texto, quando ele nos apresenta à perovskita –um mineral cristalino que é “o líder inconteste” entre as tecnologias solares emergentes– e a outras ideias para alternativas superiores aos painéis de silício que se tornaram o padrão do mercado.

Não se pode confiar apenas no setor de capital para empreendimentos como fonte do apoio de que essas novas tecnologias precisam, escreve Sivaram. “A maior prioridade do governo dos EUA deveria ser elevar dramaticamente as verbas para pesquisa e desenvolvimento para tecnologias solares inovadoras.”

Essa recomendação acarreta o risco de fazer da busca da perfeição um obstáculo no caminho do viável.

Ele descreve um decepcionante voo de helicóptero por sobre um vasto complexo de painéis solares no deserto de Mojave (Califórnia), quando percebeu que não havia maneira de colocar em operação as inovadoras células em que trabalhava em seu laboratório em Oxford com a rapidez e a escala necessárias.

Os painéis de silício podem não ser ideais, mas são abundantes e baratos. A história da Solyndra, companhia californiana que propunha uma tecnologia solar inovadora, recebeu apoio do governo Obama, mas terminou por se provar um fiasco comercial e de engenharia, é um exemplo das dificuldades que um governo enfrenta para apoiar a inovação.

“Taming the Sun” oferece um alerta importante sobre os riscos que o setor enfrentará se persistir no mesmo caminho. Quem deseja compreender como a transição dos combustíveis fósseis para a energia renovável pode acontecer deveria ficar atento à hipótese de Sivaram.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Fonte: Folha