Movido a energia solar, cinema de Socorro se destaca unindo tradição e tecnologia

História do cinema da cidade mostra como administração familiar e paixão ajudaram a superar crises no mercado. Energia solar faz parte de projeto pioneiro.

Cinema em Socorro, no Circuito das Águas Paulista, funciona com energia solar (Foto: André Marchese)

Longe do alcance dos olhos do público, 57 painéis instalados no telhado convertem energia solar em eletricidade e fazem rodar os filmes no Cine Cavalieri Orlandi, em um projeto pioneiro no país. O cinema de Socorro (SP) é uma das poucas salas independentes em funcionamento em cidades brasileiras com menos de 50 mil habitantes. Ao unir tecnologia e elementos originais da década de 40, ele se destaca e ganha admiradores.

O investimento foi a estratégia usada pela Família Orlandi para manter as portas abertas. E tem dado certo. Lançamentos mundiais são exibidos simultaneamente com os grandes centros urbanos, em 2D e 3D, e salas de poltronas confortáveis e adaptadas com o mais avançado sistema digital de som e imagem foram algumas das inovações.

“Sabíamos que, se não acompanhássemos a evolução tecnológica, não sobreviveríamos”, diz André Marchese, neto do fundador João Della Maggiori Orlandi.

A cidade foi a primeira do Circuito das Águas Paulista e arredores a contar com a tecnologia digital e a exibir filmes em 3D em uma sala no formato “stadium”, semelhante a um teatro, inaugurada em 2012.

Passado e presente juntos

O passado e o presente se misturam na linha do tempo que guarda a história do cinema. É inevitável cruzar o quarteirão da Rua Dr. Campos Salles, no Centro de Socorro, sem reverenciar o prédio número 63, que ostenta a maior parte da sua arquitetura original.

Atrás das paredes de cor salmão, terceira e quarta gerações dos Orlandis flertam com o desafio de manter viva a tradição da família, que acaba de completar 76 anos. O Cavaliere Orlandi foi inaugurado em 24 de junho de 1942 em plena ascensão da Segunda Guerra Mundial. Na época tinha 540 lugares.

Com instinto empreendedor nas veias, André Marchese se mostra determinado em manter distantes as diversidades ameaçadoras do mercado e da economia. Ao lado das irmãs, assumiu a direção do cinema em 2006 e em 12 anos promoveu mudanças, que certamente, deixaria o avô orgulhoso.

R$ 1,2 milhão

Equipamento antigo de projeção cinematográfica recepciona público na entrada do cinema em Socorro (Foto: André Marchese )

Os investimentos feitos pela família para que a cidade mantenha a tradição de ostentar a fama de ter o melhor cinema do Circuito das Águas Paulista e arredores ultrapassa a R$ 1,2 milhão.

O sistema de som de 11.1 canais é o que, na época, havia de melhor. Poltronas confortáveis e acessíveis para pessoas com deficiência e obesas, a chegada imediata de lançamentos da indústria cinematográfica e a possibilidade da compra de ingressos on-line reforçaram os diferenciais durante esse período de reestruturação. Atualmente são duas salas, com 170 e 98 lugares.

Quem entra e passa pelo hall, e observa em exposição a antiga máquina de projeção e as duras cadeiras de madeira, logo percebe que o cinema passou por uma profunda reformulação.

“Me lembro das conversas em família e a incerteza do resultado, mas o mundo havia mudado. Tínhamos que investir antes da concorrência. Falei com pessoas, procurei parceiros até fora de Socorro. Muitos me consideravam louco. Então, fui aos bancos, entrei em financiamentos, tudo com o apoio da família”, conta Marchese.

O investimento trouxe retorno imediato. Filmes de qualidade, tecnologia de ponta e conforto trouxeram filas e salas lotadas.

“Muita gente de fora vem a Socorro para assistir aos grandes lançamentos”, explica o empresário.

Atualmente o cinema se sustenta, mas economizar para investir é o lema dos Orlandis.

Economia necessária

Andre Marchese e a filha Gabriela, administradores do cinema de Socorro (Foto: Andreia Pereira/Divulgação)

Em 2017, com a despesa de energia elétrica mensal na casa de R$ 2 mil, o Cine Cavalieri recebeu a tecnologia fotovoltaica, que converte diretamente a energia solar em eletricidade. O gasto foi reduzido a 10%, R$ 200 por mês.

Diretora-executiva da empresa de Salvador (BA) que executou o serviço, Izabella Dantas afirma que o projeto no cinema é pioneiro no Brasil. “Acompanhamos o mercado e a concorrência e posso cravar que o cinema de Socorro foi o primeiro no país a receber a tecnologia fotovoltaica”, comenta.

Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o Brasil ainda está ao menos 15 anos atrasado em relação a outros países na adoção da energia solar, mesmo assim, pesquisas apontam que em cinco anos a instalação de painéis fotovoltaicos cresceu 81.000% no país.

A economia permite novos planos para o espaço, e Marchese pretende, em breve, instalar dispositivos que favoreçam a presença de deficientes visuais e auditivos nas salas do cinema.

“Acessibilidade é algo importante e nós nos mantemos atentos às regras e evoluções do mercado. Assim que critérios e equipamentos forem definidos, vamos adaptar nossas salas”, promete.

Superação

Prédio conservado do cinema de Socorro é uma das atrações da cidade (Foto: André Marchese)

Ao longo de 76 anos de história, o cinema de Socorro superou períodos sombrios. Em tempos em que as pornochanchadas nacionais já não despertavam interesse e diante de problemas estruturais encontrados no prédio e desgaste de equipamentos, as bilheterias caíram.

Sem encontrar alternativas, a segunda geração dos Orlandis, resolveu fechar as portas do cinema. A tradicional casa fundada por João Della Maggiori Orlandi, e tão bem cuidada durante décadas por Antônio Calafiori – amigo da família que chegou a ter um cinema sem sucesso -, parecia ter perdido a finalidade.

Entre 1983 e 1996, 13 anos se passaram até que a Empresa Cinematográfica São Luís, com sede em São Paulo, em parceria com o departamento municipal de Cultura de Socorro e com o então locatário reabriram o cinema. O prédio passou por ampla remodelação.

Mesmo assim, foram mais dez anos de altos e baixos, assombrados pela possibilidade de se ter em casa a chance de assistir filmes em DVDs ou home theaters. A caminho de uma nova paralisação das atividades, a terceira geração da Família Orlandi se uniu em 2006 e reassumiu a direção do cinema, com o investimento que o colocou em destaque novamente na história da cidade.

Fonte: G1