Salvação do semiárido está no sol e no vento, defende cientista

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A água, até hoje espécie de âncora do desenvolvimento sócio-econômico da civilização, tornar-se-á um bem ainda mais escasso em futuro não tão distante assim e pode vir a emprestar ao sol esse papel de suporte essencial ao crescimento humano e material nas áreas mais secas do Brasil e do mundo.

Lógico que a água é indispensável à existência de vida, mas, por mais paradoxal que possa parecer, o sol é na atualidade parte indissociável da solução para as consequências da crise hídrica no mundo, no Brasil e no Nordeste em particular.

Essa é uma mudança necessária de enfoque do problema, defende Paulo Nobre, uma das autoridades científicas do país mais respeitadas no planeta em matéria de clima. Doutor em Meteorologia e membro do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ele coordenou até o ano passado a Rede Brasileira de Pesquisas em Mudanças Climáticas Globais – Rede Clima.

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Convidado a abrir o seminário “A Crise Hídrica no Semiárido Paraibano”, realizado há uma semana (1 e 2/9) pelo Tribunal de Contas da Paraíba, ele concedeu entrevistas e sacou, em imagens, seu convincente arsenal de mapas, gráficos e estatísticas sobre a evolução secular da fúria da natureza e seus efeitos sobre a Terra.

Traduziu tudo em linguagem acessível, bastante explicado, para propor “um outro olhar” sobre o importante papel que, na sua opinião, as alternativas energéticas – a solar e a eólica, principalmente – exercerão no mundo em três a quatro décadas.

Hoje coordenando o desenvolvimento do Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre – BESM, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Inpe, ele sugere enfrentar agora os desafios de mudar o foco, pensar e agir diferente. E, detalhe essencial: “Ter o sol como aliado para alcançar, com as alternativas energéticas e o avanço das novas tecnologias, um novo estágio de prosperidade”. Para o Nordeste, especialmente, e das demais regiões semiáridas do mundo de forma geral. Educação e conhecimento, frisou, são passos fundamentais para que isso aconteça.

Cresce a fúria da natureza

Cientificamente, conforme mostrou em sua exposição, está mais do que comprovado que cresce a tendência de eventos climáticos extremos no planeta. Mais seca e inundações, terremotos, temperaturas extremas, fome, infestações de insetos, erupções vulcânicas, incêndios florestais, tempestades de vento… É que pode vir por aí.

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Nesse cenário hoje é visível, também, conforme constatação igualmente apresentada por ele, que a temperatura no Nordeste está subindo acima da média mundial e o processo de desertificação do semiárido avançando cada vez mais.

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É essa realidade adversa que exige, na opinião do cientista, reação mais ampla e enérgica que a simples constatação das desgraças e seus efeitos. “Nada resolve simplesmente saber que a seca penaliza o semiárido nordestino”, disse, enfático, ao defender mais iniciativas, projetos e ações transformadoras da realidade econômico/social pela utilização das alternativas energéticas limpas e renováveis.

Potencial para gerar emprego e renda

Paulo Nobre acredita que somente com investimentos de porte (públicos e privados) como os que já ocorrem noutros países – citou Japão, Israel, EUA e Alemanha – o potencial de produção de energia fotovoltaica e eólica no semiárido nordestino e nas regiões degradadas do país vai se transformar em oportunidades reais, capazes de gerar emprego e renda.

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O potencial solar brasileiro em áreas degradadas é de 64,3 PWh/ano, revelou. O Nordeste lidera: 19,7 PWh/ano, seguido do Sudeste (23,2 PWh/ano), depois Centro Oeste (13,3 PWh/ano), Norte (5,6 PWh/ano) e, finalmente, a região Sul (0,47PWh/ano).

E mais: o potencial de geração de energia solar do Nordeste supera, conforme demonstrou, em 33 vezes todo o consumo nacional de energia no ano de 2014. A Paraíba sozinha, pela mesma comparação, tem potencial de fornecer ao país o dobro do consumido naquele ano.

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Custos hoje são mais acessíveis

Ele apresentou dados comparativos do quanto vem caindo o custo de instalação de sistemas de produção de energias solar e eólica. “Em 1980, um módulo de placa fotovoltaica capaz de gerar 8 kW custava vinte dólares, hoje custa apenas oito centavos de dólar”.

Outro exemplo: “Os futuros geradores de energia eólica multiplicarão por dez sua capacidade atual. E passarão dos atuais 100m para alturas de até 250m, quase o tamanho da Torre Eiffel. Apenas um destes será capaz de gerar 20.000 kW”.

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Para Paulo Nobre, o investimento em energia solar e eólica pode contribuir para geração de emprego e renda no semiárido, por meio da fabricação, instalação e manutenção das unidades produtivas e complexos geradores. Segundo ele, até o uso em maior escala de painéis fotovoltaicos em telhados de casas do semiárido geraria renda e contribuiria para uma maior independência econômica das pessoas.

Tem que sanar o débito da Educação

Na sua opinião, em meio a tudo isso é preciso, ainda, “sanar o débito educacional” do país, priorizando o que classifica como “necessidade de mais investimento na educação para o século XXI”. Significa adotar um tipo de ensino que foca o acompanhamento dos avanços tecnológicos mundiais, úteis para todas as áreas.

E ilustra, por fim, essa sua observação recorrendo ao que acontece hoje noutros países. Israel cobre seus imensos reservatórios com painéis solares. A Alemanha faz testes para tornar suas estradas geradoras de energia e nos Estados Unidos já há algum tempo estão em teste os carros sem motorista.

“Precisamos acompanhar os avanços tecnológicos, compreender que o mundo mudou, e continuará mudando. O desafio é sabermos usar toda essa evolução ao nosso favor”, concluiu.

Os avanços da desertificação

A Paraíba tem 170 dos seus 223 municípios em área do Semiárido. São 48.785 km², o que corresponde a 86% do tamanho do estado. De acordo com dados do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), já nos anos 90 cerca de 2,8 milhões de hectares eram afetados por processos de desertificação em níveis considerados elevados.

Estudos do mesmo Instituto mostram a vegetação nativa da região semiárida paraibana bastante modificada pelo homem. Indicam que os solos vêm sofrendo um processo intenso de desertificação devido à substituição da vegetação natural por campos de cultivos, pastagens e outros usos alternativos da terra.

Já a região semiárida do Nordeste compreende uma área de 969.589 km², com 1.133 municípios e aproximadamente 28 milhões de habitantes, segundo atualização do Inpe, registrada em 2013 nos Anais XVI Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto – SBSR, em Foz do Iguaçu (PR).

No Nordeste, as áreas em processo de desertificação, em diferentes graus de intensidade, já somavam em 1994 uma superfície correspondente a 22% da área total semiárida. Desde então, essa realidade piorou muito.

Fonte: Jornal da Paraíba