Sustentabilidade não é setor, é função de toda a empresa, diz executivo

Claude Ouimet
Claude Ouimet, vice-presidente sênior e gerente geral da Interface no Canadá e na América Latina

“Vai ser assim: o bônus de vocês estará diretamente ligado com a habilidade de diminuir 5% do impacto ano a ano.” Foi dessa forma que Ray C. Anderson, fundador da multinacional de carpetes Interface morto em 2011, explicou como a empresa adotaria a sustentabilidade como propósito há quase vinte anos.

Uma das pessoas presentes na reunião global da companhia era Claude Ouimet, há 27 anos na empresa e hoje um dos responsáveis em manter vivo o legado de Ray. Ele é vice-presidente sênior e gerente geral da Interface no Canadá e na América Latina.

Nascido no Canadá, Ouimet hoje vive nos Estados Unidos e já foi responsável pelo departamento de vendas e marketing. Ele esteve nesta terça-feira (21) no Rio como participante da plenária “O propósito no centro das organizações”, no Sustainable Brands 2016.

Para ele, a chave para a empresa manter o propósito de seu fundador está nos funcionários. “É tudo sobre a diferença que cada um traz para a empresa. Contratamos alguém por causa de sua singularidade e sua habilidade de entender o que estamos tentando alcançar.”

Ouimet também falou sobre a responsabilidade de uma empresa ser “verde”. “Não se pode ter um departamento de sustentabilidade. Se tiver, [funcionários] vão dizer que isso não é responsabilidade deles e sim do departamento.”

Leia abaixo trechos da entrevista.

Folha – A Interface é uma empresa global. É possível ter o mesmo propósito globalmente?

Claude Ouimet – Quando começamos a implementar a sustentabilidade na Interface, em 1997, essa questão foi um desafio, e nós entendemos isso. Fizemos uma reunião global em Atlanta (EUA) com todos os gerentes. Ray [C. Anderson, fundador] disse para nós: “Eu quero mudar o caminho da Interface para o da sustentabilidade”.

Ninguém entendeu o que ele quis dizer, mas ele nos explicou: “Vai ser assim: o bônus de vocês estará diretamente ligado com a habilidade de diminuir 5% do impacto ano a ano”. Cinco segundos depois, nós entendemos. Sabíamos que era sério.

Algumas pessoas saíram da Interface por causa disso. Eles disseram que isso não era para eles, que só queriam vender carpetes, não ser um vigilante da sustentabilidade. Mas aqueles que ficaram acreditavam que era possível.

E a beleza é que [sustentabilidade] é diferente para as pessoas. Às vezes, há mais atuação no lado social, outra região é mais ambiental. Pode variar de lugar para lugar, mas, de maneira geral, é a mesma coisa porque queríamos ter uma visão holística do que é sustentabilidade.

Como manter esse propósito de sustentabilidade depois que o principal líder sai de cena?

Foi uma questão que nos perguntamos quando Ray morreu. Mas ele havia colocado um sistema que, na época, não havia um vice-presidente responsável pela sustentabilidade, era o compromisso de todos.

É tudo sobre a diferença que cada um traz para a empresa. Contratamos alguém por causa de sua singularidade e sua habilidade de entender o que estamos tentando alcançar. É o seu presente para a nossa empresa.

Quando você trata seus empregados assim, eles se sentem reconhecidos, o que mantém o espírito vivo. É assim que mantemos o propósito da Interface vivo.

Se uma empresa quiser incluir a sustentabilidade em seu modelo de negócio, o que você indicaria?

Se eu fosse falar com um grupo de gerentes superiores que querem iniciar a sustentabilidade, eu pediria que tratassem os gerentes intermediários com muito cuidado, essa é a parte difícil.

[Os gerentes intermediários] Podem falar para seus funcionários e dizer: “Estou avaliando vocês por produtividade, não por sustentabilidade. Eu não sou avaliado por isso”.

Isso que significa mudança. Se você falar para esses gerentes que eles têm que dar para todos uma meta de redução de impacto, eles vão entender que temos um papel nesse sentido.

Não se pode ter um departamento de sustentabilidade, se não vão dizer que isso não é responsabilidade deles e sim do departamento. Esse é o trabalho de toda a empresa.

Também diria que não tentem trazer outras formas de fazer. Tragam outras formas de pensar. Você também tem que deixar os privilégios de lado. Você é parte do time. Livre-se daquilo que os torna diferentes.

Você acha que é possível uma empresa não ser sustentável hoje em dia?

Ainda é possível, mas elas não resistirão ao tempo. Para ter resiliência, não há escolha, é preciso mover nessa direção. Se não, outra pessoa vai fazê-lo.

Principalmente após a conferência do clima, em Paris, existe um nível de consciência nos negócios e as pessoas avançam, então essas empresas serão deixadas para trás.

Quando as pessoas me perguntam quanto custou para a Interface ser “verde”, nesse momento eu sei que eles não entendem. Aqui vai uma nova forma de pensar: quanto custa não ser?

De uma perspectiva de marketing, de marca, de cultura, do engajamento dos funcionários, o custo de não ser é maior.

Mas a sustentabilidade é possível para todo o tipo de negócio?

Deixe-me fazer uma piada sobre isso. Se uma empresa têxtil de Geórgia (EUA), que não é o Estado mais progressista, pode ser sustentável, todos podem.

Fonte: Folha SP/UOL